A Participação do Farmacêutico na Equipe de Cuidado a Pacientes com Hanseníase

A Hanseníase é uma doença crônica, infectocontagiosa, lentamente progressiva causada pelo Mycobacterium leprae, o qual tem a capacidade de infectar grande número de indivíduos, no entanto, poucos adoecem. A doença atinge principalmente a pele, os nervos periféricos, a mucosa do trato respiratório superior e os olhos. A transmissão ocorre através do contato próximo e prolongado de uma pessoa doente sem tratamento para outra, ou seja, mais comuns entre os de convivência domiciliar. É uma doença que tem cura, mas pode provocar alterações graves, incapacidades e deformidades físicas quando o diagnóstico é tardio e o tratamento não é realizado ou é interrompido.

O Brasil vem lutando há anos para eliminar a hanseníase como problema de saúde pública, o que significa registrar menos de um caso para cada 10 mil habitantes, mas infelizmente ainda não foi alcançado esse objetivo. Estudos mostram diminuição significativa do número de casos, porém ainda há muitos desafios para alcançar as principais metas proposta pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a saber: Nenhuma criança diagnosticada com hanseníase e deformidades visíveis e menos de 1 caso de hanseníase diagnosticado com deformidades visíveis para cada 1 milhão de habitantes até 2020. 

Ações vêm sendo tomadas para a redução da carga de hanseníase no Brasil e por não existir proteção especifica como vacinas para hanseníase, as atividades proposta pelo Ministério da Saúde para reduzir a carga da doença consistem em: Educação e Comunicação em Saúde; Investigação Epidemiológica para o Diagnóstico Precoce de Casos; Tratamento até a Cura; Prevenção e Tratamento de Incapacidades; Vigilância Epidemiológica; Exames de Contatos; Orientações e Aplicação de Vacina BCG (Bacillus Calmette-Guérin).

O controle da Hanseníase no Brasil vem melhorando devido às campanhas nacionais, integração dos serviços de saúde, treinamento e capacitação de profissionais para um diagnóstico precoce e acompanhamento do tratamento até a cura. Inspirado em uma experiência exitosa desenvolvida no Estado do Tocantins denominada “Palmas livre de Hanseníase”, iniciada em 2016, o Ministério da Saúde Brasileiro desenvolveu em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde e com apoio da Fundação Nippon do Japão, o “Projeto Abordagens Inovadoras para intensificar esforços para um Brasil livre de hanseníase”. Essa iniciativa terá duração de três anos em 20 municípios dos Estados do Maranhão, Mato Grosso, Pará, Pernambuco, Piauí e Tocantins, estados que apresentam o maior número de casos novos de hanseníase diagnosticados em menores de 15 anos.

Nas doenças crônicas, a adesão ao tratamento medicamentoso é fundamental. Porém, muitas vezes isso não acontece, gerando prejuízos para a saúde do indivíduo, podendo causar complicações no seu quadro clínico. A adesão do paciente à farmacoterapia para o tratamento da hanseníase é primordial para que haja a cura e eliminação da doença. Sabe-se que o baixo grau de adesão ao tratamento medicamentoso, em qualquer condição clínica, pode estar relacionado, entre outros fatores, ao conhecimento do paciente tanto sobre a doença quanto sobre os medicamentos para tratá-la.

O tratamento específico da Hanseníase, recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e preconizado pelo Ministério da Saúde do Brasil, é a poliquimioterapia – PQT, uma associação de Rifampicina, Dapsona e Clofazimina. Tendo em vista que o tempo de tratamento é longo, de seis meses a um ano dependendo do tipo de hanseníase (paucibacilar ou multibalcilar), a atuação do farmacêutico clínico na realização do acompanhamento dos resultados da farmacoterapia prescrita é fundamental para obter informações que possam indicar se a terapia está sendo efetiva e segura para o paciente ao longo do tempo. Além disso, o farmacêutico clínico pode também realizar o acompanhamento pós-alta do paciente em uso de Talidomida e corticosteroides nos casos de reação hansênica.

Como membro da equipe multiprofissional de cuidado, o farmacêutico pode contribuir para a adesão ao tratamento medicamentoso, orientando o paciente sobre o uso correto dos medicamentos e seus possíveis efeitos colaterais e reforçando a importância da conclusão do tratamento para obtenção da cura da doença. Para tanto, o profissional precisa compreender as dificuldades do paciente para aderir ao tratamento, de forma a subsidiar a realização de um cuidado mais humanizado e de qualidade, implicando na promoção de ações de saúde que se traduzam na resolução dos problemas identificados, contribuindo para a prestação de assistência integral ao paciente e reforçando o vínculo paciente/profissional de saúde.

Em dois anos de atendimento farmacêutico em unidade de referência para tratamento de hanseníase na cidade de São Paulo, nenhuma falta de adesão e/ou abandono do tratamento foram identificados. Este resultado advém da realização de um trabalho de equipe e não da ação isolada do farmacêutico, mas sua inserção neste time contribuiu sobremaneira para a boa evolução clínica dos pacientes assistidos, para evitar retornos aos serviços de saúde, seja por complicações ou por insuficiência terapêutica, e para a melhora da sua qualidade de vida, nos contextos pessoal, social e econômico.

 

Es. Luzia Maria Lustosa da Silva
Farmacêutica Responsável Técnica –  UBS/Ambulatório de Especialidade/Centro de Especialidade Odontológico – Jardim São Carlos.

 

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