Análise da Causalidade e Evitabilidade de Reações Adversas a Medicamentos em Pediatria

O uso de medicamentos em crianças é bastante desafiador para a equipe de saúde. Ensaios clínicos em pediatria são escassos, o que contribui para o uso de medicamentos não licenciados e dúvidas quanto à determinação da posologia adequada. Além disso, constantemente enfrentamos problemas pela falta de formulações adequadas e diretrizes de tratamento. As crianças não podem ser consideradas como adultos pequenos e, em muitas situações, não é possível extrapolar os dados disponíveis sobre o uso em adultos. Compreender a relação entre farmacocinética e farmacodinâmica é importante para a prática clínica, particularmente quando fatores como idade, genótipo, comorbidade e polifarmácia podem afetar sua natureza.

A maturação dos sistemas hepáticos e renais ocorre lentamente na criança, o que significa menor expressão ou mesmo falta de enzimas do citocromo P450 (isoenzimas CYP1A2, CYP2C9, CYP2C19 e CYP2D6), diminuição do fluxo sanguíneo renal, filtração glomerular e função tubular. Estas e outras mudanças podem afetar a absorção, distribuição, metabolismo e eliminação de fármacos em crianças aumentando o risco de toxicidade.

A segurança do paciente no uso de medicamentos é uma prioridade na agenda da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). A Organização Mundial de Saúde (OMS) identificou algumas áreas-chave, incluindo a medição de danos, compreensão das causas, identificação de soluções, avaliação do impacto e tradução de evidências em cuidados mais seguros. No Brasil, o Programa Nacional de Segurança do Paciente, instituído pela 529/2013, especificou a prescrição, dispensação e administração de medicamentos como uma das áreas prioritárias para a (i) produção, sistematização e difusão de conhecimentos sobre segurança do paciente e (ii) fomento do tema no ensino técnico, de graduação e pós graduação na área da saúde.

O risco de reações adversas a medicamentos (RAM) é maior em crianças, sendo considerado um grave problema de saúde pública e uma das dez principais causas de mortalidade em diversos países. A incidência de RAM em crianças parece variar bastante (0,6 a 16%) e pode estar relacionada às diferentes práticas e estratégias de cuidados, aos medicamentos utilizados e até mesmo à regulação dos países. No entanto, um quinto destas reações podem ser evitadas. A prevenção de danos evitáveis devido a RAM é a principal motivação clínica para o estudo da segurança de um fármaco e um dos focos do cuidado exercido pelos farmacêuticos clínicos em hospitais.

A avaliação da causalidade (ou imputabilidade) de RAM baseia-se no exame da relação entre a ocorrência de um evento adverso e um medicamento suspeito. Para isso, algumas questões do caso clínico são observadas como (i) existência de relatos prévios da mesma reação com o mesmo medicamento, (ii) aparecimento da reação após a administração do medicamento, (iii) desaparecimento ou melhora da reação após suspensão do uso do medicamento suspeito, (iv) existência ou não de outro fator ambiental ou situação clínica que explique a ocorrência do evento, (v) reaparecimento da reação com a reintrodução do medicamento, (vi) evidências objetivas da reação adversa e (vii) ocorrência de reação similar com o mesmo paciente no passado.

No que tange a evitabilidade ― ou previsibilidade ― de reações adversas a medicamentos, sabe-se que que metade das RAM que acometem adultos podem ser evitadas (ou prevenidas). Contudo, não existe um modelo padrão para análise e vários métodos vendo sendo usados para avaliar a evitabilidade, incluindo a opinião de especialistas. A maior parte dos métodos fundamenta-se na seleção e prescrição do tratamento adequado para minimizar ou prevenir a ocorrência de RAM.

Historicamente, os estudos sobre a causalidade e evitabilidade de RAM em pacientes pediátricos vem utilizando escalas que se mostraram pouco confiáveis. Este problema motivou o desenvolvimento e validação de dois novos algoritmos, específicos para pediatria, em uma coorte que incluiu mais de 6000 crianças por pesquisadores britânicos. As perspectivas de uso destes algoritmos no Brasil por farmacêuticos clínicos junto à equipe multidisciplinar foram discutidas no 3º Congresso Brasileiro de Farmacêuticos Clínicos (PCARE 2018).

 

PhD. Elisângela da Costa Lima
Docente e Pesquisadora – Área Farmácia Hospitalar e Clínica – Faculdade de Farmácia Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

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